• Renato Del Buono

UMA LIÇÃO DE VIDA

Updated: Aug 20, 2019


Em um domingo estranho, nem chuvoso, nem com céu claro, com um calor exacerbado e ao mesmo tempo com calafrios esporádicos, nos despedimos do meu agora saudoso tio Wilson. Minha alegre, forte, mas também sensível tia, me abraçou como sempre e chorou como nunca ao me dizer, com profunda tristeza: “Perdemos seu tio”.


Sim, é verdade. Perdemos o tio Wilson e, em algum outro lugar do chamado multiverso, ele ainda vive, assim como estará sempre vivo em nossa memória e em nossos corações. O eterno ladrão de chupetas.


Meu tio não era uma pessoa popular, longe disso. Muitas vezes era dificil entender se ele estava bem ou mal, entediado ou se divertindo, triste ou feliz. Sua fisionomia era quase sempre séria, de poucos amigos, principalmente para aqueles que não o conheciam.


As pessoas que realmente sabiam quem era o tio Wilson trazem na lembrança suas piadas, suas risadas, seu bom humor, sua generosidade, suas onomatopéias. Ele era com certeza diferente da grande massa, que raramente caminha fora dos padrões da sociedade. Tinha gosto musical apurado (excluindo o sertanejo) e era fã de carteirinha do humor inteligente, e nada vulgar, de Laurel e Hardy, ou Stan e Ollie.


Tio Wilson era simplesmente o tio Wilson, doa a quem doesse. E acredito que essa é a maior lição que ele deixa para nós, que ainda não fomos.


Tio Wilson tinha seus defeitos, suas limitações, como todos nós temos. Podia errar em suas conclusões ou julgamentos, quando os fazia. No entanto, ele era verdadeiro, fiel aos seus sentimentos, suas crença e percepções.


Se o tio Wilson quisesse ir, ele ia. Se não, ele ficava. Se ele quisesse falar, ele falava. Se não, ele se calava. Se o tio Wilson quisesse sorrir, ele sorria. Se quisesse gargalhar, ele gargalhava. Se não, ele não esboçava um sorriso, para quem quer que fosse. Se o tio Wilson quisesse xingar, ele xingava. Se quisesse gritar, ele gritava. Se gostasse, ele demonstrava e se não gostasse, ele também demonstrava.


Não me lembro de escutar nem testemunhar, em nenhum momento dos poucos mais de quarenta anos de convivência com ele nesse mundo, que o meu tio Wilson era ou tinha sido uma pessoa falsa. Longe disso.


E por ele não se preocupar em ser popular, em querer agradar a fulano ou a ciclano custe o que custar, sua ausência vai deixar saudades, em nossos encontros de familia, em nossas visitas à sua casa, em nossos almoços de fim de semana.


Acho que ainda sofro para aprender essa lição, mas tento ao máximo chegar na genuinidade onde meu tio já estava. Espero que as pessoas possam também entender e aprender com a vida e as qualidades dele.


Que descanse em paz, meu tio Wilson, pessoa verdadeira e fiel aos seus sentimentos. E que volte sempre que puder, quem sabe um dia para roubar as chupetas dos filhos dos filhos de seus sobrinhos. Seja feliz!

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