• Renato Del Buono

VIVENDO E APRENDENDO

Updated: Aug 20, 2019


Eu já sabia, não sei como, mas o dia 29 estava na minha cabeça. Não sei explicar. Não sabia o que dizer para ele, para as outras pessoas, só sabia que tinha chegado o dia em que eu veria meu pai vivo pela última vez.


Parecia que esse dia nunca chegaria, ou que era para ter chegado antes. Eu já havia chorado por ele no dia em que ele foi para o hospital com uma crise de labirintite, que mais parecia outro infarto. Naquele dia eu havia sentido o medo e a tristeza da possibilidade de perder ele. Mas os dias passam, a gente esquece e não lembra mais dessa possibilidade. Mesmo durante um tratamento tão intenso contra o câncer.


Que mal é esse, que tira tanta gente da gente? Tanta gente que poderia passar mais tempo entre nós. Faz sofrer tanta gente que a gente ama tanto. E a gente sofre em silêncio, de tanto ver quem a gente ama sofrer. Não há explicação, não há manual de instrução, cada história é diferente, cada um reage de uma maneira, tanto paciente como parente. Igual, apenas, deve ser a dor imensa que deixa no coração de quem sofre a perda.


Para quem vai, muito provavelmente vai dessa para melhor. Mesmo que nem todos acreditem ou concordem, deve ser um recomeço, ou um novo começo, ou mesmo uma continuação. Porque a vida continua e não há como apagar ou se arrepender do que fizemos ou deixamos de fazer. Somente há que entender como lidar com tudo isso, para seguirmos aprendendo e vivendo, a nova (ou velha) vida, em um mundo para onde um dia todos nós iremos (ou voltaremos).


Meu pai veio a esse mundo totalmente diferente da pessoa que ele era quando se foi. Ele veio para aprender, melhorar e assim o fez. Errou muito, teve muitos defeitos, talvez tenha até provocado emoções negativas, tipo medo, raiva ou tristeza, em pessoas que nem conhecia direito assim como em quem mais amava. Eu sempre dizia como era irritante ser acordado por ele agarrando e chacoalhando o meu dedão do pé, como se quisesse arrancá-lo fora. Depois fechava com chave de ouro, abrindo a janela que ficava bem em frente à minha cama para a claridade entrar e estapear meu rosto.


Com o passar dos anos, eu fui testemunha da sua mudança. Todo mundo muda, de alguma maneira. Posso afirmar com convicção que meu pai mudou para melhor. Longe de ser perfeito, muito longe disso. Mas o homem que partiu para outro mundo e deixa uma saudade gigante em muitos corações, incluindo o meu, não é a mesma pessoa que um dia eu conheci. E isso me ensina muito, ensina muito a todos nós.


A criança e o jovem Ivan eu não conheci, mas sei que, durante sua criação, ele teve momentos de felicidade, tristeza, euforia e angústia, que talvez tenham colaborado com alguns bloqueios. Isso refletiu-se no pai Ivan, que era carinhoso mas às vezes frio. Era amigo mas ao mesmo tempo rígido, como um general, minha mãe dizia. Com o tempo isso foi mudando. Ele foi ficando mais amigo, mais aberto, mais carinhoso, mais sensível. Suas mudanças de atitude eram visíveis, mesmo que a cara de carrancudo viesse a tona caso não concordasse com alguma coisa.


Quando os netos nasceram então, aí sim ele se transformou de vez. Era nítido o sorriso de criança em seu rosto. Ficava derretido por seu mais precioso tesouro. Seu vocabulário que antes refletia uma atitude firme, aquele tipo bem machão, estilo homem não chora, se tornou uma coletânea de palavras e frases cheias de amor, de ternura.


O querido e doce Ivan é quem agora nos deixa. Ele ainda poderia ter melhorado a negatividade, ainda mais quando assistíamos juntos aos jogos do timão. Mas hoje eu vejo como era difícil e como, nem sempre, eu estava certo em pedir para ele ser mais positivo. Ninguém sabia mais do que ele como era difícil. Ninguém sabia melhor que ele tudo o que ele estava enfrentando.


Meu pai lutou, lutou muito. Ainda não sei dizer se por nós ou por ele. Ele vivia se indagando o porquê de ter ficado doente. Ele que sempre foi tão ativo e saudável. Eu também não sei dizer porque ele teve que passar por tudo isso. Só sei que ele foi muito forte.


E se isso fazia parte de mais uma lição que ele tinha que aprender, meu pai mais uma vez ensinou a todos que estavam por perto, em como encarar cada obstáculo com esperança. Porque por mais que ele fosse ou parecesse negativo, ele ainda encontrou forças para dar esperança a todos nós, que torcíamos pela sua vitória, até os últimos dos seus dias. Nunca vou me esquecer de como ele foi forte, até o fim! E nunca vou me esquecer de tudo que ele me ensinou, até o fim...


“Não sei se a vida é curta ou longa para nós, mas sei que nada do que vivemos tem sentido, se não tocarmos o coração das pessoas.


Muitas vezes basta ser: colo que acolhe, braço que envolve, palavra que conforta, silencio que respeita, alegria que contagia, lágrima que corre, olhar que acaricia, desejo que sacia, amor que promove.


E isso não é coisa de outro mundo, é o que dá sentido à vida. É o que faz com que ela não seja nem curta, nem longa demais, mas que seja intensa, verdadeira, pura enquanto durar. Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina.”

Cora Coralina

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