• Renato Del Buono

O QUE SE PASSA NO ÍNTIMO DAS PESSOAS?


Tempos de quarentena. Tempos de ficarmos juntos de nossas famílias, conhecermos melhor nossos pais, filhos, marido, esposa, irmãos, ou simplesmente conhecermos melhor a nós mesmos, sozinhos ou mesmo acompanhados.


Que coisa louca, impensável, surreal. Quem poderia imaginar, no seu mais profundo intimo, que um dia passaríamos por essa situação. E a cada semana reclusos, cada vez mais expostos ficamos. A solidariedade florece para alguns, enquanto a tolerância apodrece para outros. E assim os conflitos se multiplicam exponencialmente, seja em casa ou à distância.


Saúde mental já era um tema em ascensão e agora, com uma pandemia global e isolamento social, a higiene emocional passa a ser assunto obrigatório, assim como lavar as mãos e escovar os dentes. A válvula de escape de muitos desapareceu de um dia para o outro.


Não há mais como compartilhar fotos de pratos de refeição em restaurantes de luxo, de churrascos em casa de amigos, viagens ao exterior ou paisagens paradisíacas em resorts tupiniquins. Não há como se esconder do marido com quem você mal encontrava, da esposa com quem você mal conversa, do parceiro com quem você foi morar por pura comodidade. Não há como ignorar as crianças que você mal conhece e que normalmente estavam na escola ou com a babá. Não há como fugir da dor da solidão.


Agora, mais do que nunca, você tem tempo de sobra para escutar seus pensamentos e mergulhar fundo no desconhecido. Mais preocupante que estar em uma prisão domiciliar, tentando manter as aparências com quem você mal tolera ou atura, é estar confinado(a) com alguém que você mal conhece.


As pessoas estão chegando ao limite e as máscaras estão caindo. Seja via whatsapp ou midia social, dois grupos principais estão sendo formados. Hoje, a seleção natural da humanidade se divide entre quem defende o “isolamento” e quem “luta” pela economia. Uns mais fervososos (ou agressivos) que outros. Há, portanto, diferentes niveis para cada grupo, mas tudo se resume entre saúde x dinheiro, mortos x desempregados, viver x sobreviver.


E sem máscaras, você começa a entender o que se passa (ou o que pode passar) pela cabeça das pessoas, em seu mais profundo íntimo. Você entende melhor quem valoriza o que. Você identifica melhor quem está pronto para “o que der e vier” e quem está mais preocupado com o “futuro do país”, seja torcendo contra ou a favor.


Onde antes testemunhávamos o mundo de caras, hoje reina a hipocrisia daqueles que pensam vestir a máscara do desenvolvimento e progresso, sem perceber que ficam cada vez mais visíveis suas reais prioridades. O temor da perda do controle da máquina, que rodava sem parar para o enriquecimento de poucos, provocou o desejo desesperador de muitos em clamar pela defesa dos pobres e oprimidos. Quando na verdade seus desejos mais sórdidos ainda vivem no íntimo de cada um, mas talvez, agora, não tão profundo assim.

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